segunda-feira, julho 23, 2007

Dia-a-dia, um dia!

Ontem vi-te assim adormecida com a inocência de uma criança.
Chegava a casa ao fim do dia de trabalho. Sabia da tua espera mas não pude terminar a maldita reunião que, mais não produziu, que esta saudade de te encontrar.
Tem sido assim nos últimos dias, encontrar-te adormecida no sofá da sala. Sento-me esfumaçando um cigarro enquanto admiro a tua beleza cansada do teu dia. Ali fico mergulhado nos meus pensamentos, desejando ser parte do teu sonho, ser complemento do teu sono. Temos tidos nossas discussões, mil vezes tidas no segredo de cada coração mas, no fundo, somos parte de uma mesma massa.
Ali, vendo o fumo do cigarro dissipar-se no ar penso no teu corpo adormecido, nos anos que levamos juntos, na felicidade contida que minha própria alma gera somente pelo facto de existires. Penso no dia em que te conheci em casa de uma amiga comum, no teu ar assustado e no meu coração maravilhado. Penso, somente penso! Ah, Mulher, Amiga e Amante, como seria tão mais fácil não ter de te deixar de manhã, de poder levar a nossa filha á escola. Quanto gostaria de te ver também crescer.
Hoje cheguei tarde, amanhã...amanhã, que se dane, vou tirar o dia de folga. Vou passar o dia com a nossa filha e buscar-te ao emprego. Vamos depois passear á beira mar e vê-la fazer castelos na areia, que o mar vai destruir com o sal das ondas. Sim, amanhã vou exercer o direito que me prende a ti, a ela. Sim, amanhã, mas agora vou, simplesmente admirar o teu respirar ausente no mundo dos sonhos onde te busco. Queria tanto esse teu rasgo de saudade, sentir que te completo. Hoje queria poder sentir o calor do teu sorriso "o mais belo do mundo".
Termino vagarosamente o cigarro e pego em ti nos braços tentando ter a delicadeza de quem pega numa gota de orvalho. Murmuras algo que não entendo e a que respondo com um beijo na testa. Como poderia um pintor pintar esta cena e chamar-lhe simplesmente amor.
Pego em ti para te levar para a nossa cama onde, em breve me afundarei no teu calor. Depois passo no quarto da nossa filha e sinto o teu cheiro no beijo que lhe dou na testa.
De repente, com dolo, acordo estremunhado e vazio. Não tinha sido nada mais que um sonho. A realidade abate-se como um terramoto e vejo que a cama é enorme, preenchida pela tua ausência. Fria, sem vida! Eu eu, que já não consigo adormecer, arrefeço também pouco a pouco, até ser embalado pelos frios braços da morte, levando-te em meu peito.

1 comentário:

João Carlos disse...

Bonito e sensivel. Sorte da musa dos seus escritos. Parabens e continue.