Segunda-feira, Setembro 05, 2011

Em Transito


Cruzam-se olhares desvividos indiferentes,
E eu aqui cruzando o tempo que se ausenta devagar.
Não me aproximo mais do porto, afasto-te desconhecidamente de mim,
Perdendo a noção de todos os medos.
Cruzam-se ilusões neste labirinto onde me perdi.
Na procura breve de um desejo.
Sinto-me cansado, indubitavelmente cansado,
Do amor que não tive, pela razão breve de não estar,
Porque assim estava riscado nas linhas alvas do fado!
Do grito amordaçado pela multidão,
Do silencio metafisico da ausência!
E cruzo o caminho como tenho cruzado a vida:
Buscando, perdendo, encontrando desencontros…
Cruzam-se passos apresados, cruzam-se…
Em solidão cruzo a multidão, cruzo o mar, cruzo,  cruzo-me!

Quinta-feira, Janeiro 13, 2011

Devanear

Calmo como as aguas que me invadem os olhos, vou!
Ledo e quedo de espanto e saudade das aguas sacras onde me dei,
Lavo assim minh’alma feita de pranto e cansaço e feridas de batalhas perdidas
De batalhas perdidas…
Era não mais que um punhado de homem feito sonhos ou de sonhos feito qualquer coisa que não me entendo.
Estranha metafísica.
Tudo larguei ao vento do sentir e o vento se fez vendaval se fez furacão,
E o barco rumou contra as rochas outrora ilusão de porto de abrigo.
Perdi-me mil vezes na planície daqueles olhos ternos como gelos,
No ouro não visto no brilho dos dias de sol.
Perdi-me e não encontro de mim mais que a ferida latejante do meu peito,
As areias da memória.
Tenho ainda na boca o gosto acre dos teus lábios,
Na mente a real ilusão da loucura onde o tempo se perdia entre as rochas da praia.
Estou cansado!

Terça-feira, Novembro 16, 2010

Letras vãs

Eram horas calmas
as que passei junto ás ondas,
nas areias alvas da praia.
Horas em que sorvia o sal do vento.
Eram horas em que esperava,
somente as amarras daquele navio ao largo.

Lanço as lágrimas e das aguas se faz maré cheia.

Há quem se perca no mar,
Eu perco-me nos labirintos sórdidos da memoria

Sexta-feira, Outubro 01, 2010

Recado

Um dia amar-te-ei em silêncio!
Quando se me esgotarem as palavras.
Se me cansarem os verbos.
Nesse dia amar-te-ei em silencio,
No espectro escuro das minhas entranhas.
Sem que vislumbre meu olhar o fogo extinguido do meu peito.
Um dia amar-te-ei em silêncio.

Não hoje! Um dia!
Que hoje estou cansado.

Quinta-feira, Fevereiro 11, 2010

Genesis

No início era o verbo!

E o verbo se fez beijo.

Do beijo se fez êxtase.

Em êxtase nos fizemos carne.

Em santo pecado desnudada

Pela palavra bebida e recitada

No principio era o verbo,

Do verbo nos fizemos espírito,

Do espírito nos fizemos vento.

No princípio era o verbo.

E o verbo se fez saudade!

No principio, muito antes de nos rasgarmos

Inumanamente como dois condenados,

Era o verbo!

Esse verbo feito pretérito mais que imperfeito,

De gerúndios improváveis,

Desconjugado naquele fim de tarde,

Na hora de todos os desvelos,

Quando nossas bocas gramaticalmente se decompunham

Em múltiplos tempos de uma mesma língua

Em onomatopeias mudas...

No princípio foi o verbo

E no fim também…