Domingo, Novembro 15, 2009

Analfabeto

Um dia encontrei-te feita palavra!

Eras para mim simples letras iguais a tantas outras. Não te tinha descoberto o verbo e já te lia naquele instante em que os dedos guiaram os olhos, do mesmo modo, que um dia os olhos guiariam os dedos nas páginas alvas do teu corpo.

Um dia encontrei-te feita conjunção!

Aprendi a soletrar-te e a ler-te em silêncio e aos gritos de desespero na tua ausência. Aprendi-te as sílabas e os vocábulos e a gramática. Aprendi a preencher os parágrafos dos dias com as tuas frases entrecortadas com as minhas.

Um dia encontrei-te texto descrito!

E li-te imaginando mil cenários de batalhas e estórias de encantar lidas ao serão junto á lareira. Tinhas no olhar o sabor de terras distantes e neles me imaginei príncipe. Eu que sou vagabundo dos caminhos e neles me cobro de pó. Vi-te nos lábios o sorriso encantado de criança contando estórias de encantar.

Um dia encontrei-te…e foi de tanto te encontrar que te perdi!

Segunda-feira, Setembro 28, 2009

Gastrodesatino

Revoltam-se-me as entranhas como o vento que rodopia nas folhas caídas no Outono!
Aquece-me a alma e o corpo um fogo reflectido das tarde serenas de Verão,
Para logo me varrer este frio que me sopra aos poros todas as invernias do mundo.
A espaços, não mais que a espaços, acalmo num qualquer prado verde de primavera.
Em mim se alternam as estações e turva-me o olhar como se me tem turvado a vida,
Sempre que me deleito em infames banquetes.
Revoltam-se-me as entranhas e padeço calmamente, ardentemente, desatinadamente.
Raios partam esta dor de barriga!!!

Pesadelo


Percorro em sonho, a linha suave do seu peito.
Não mais em realidade, é certo, mas em sonho.
Nela se espraiou meu corpo, breve de cansado e ali ficou,
Perdido ao caminho longo das suas coxas, ás alvas planícies da sua pele,
Onde me banhei na fonte sacra de desejos incontidos, de onde morri e onde ressuscitei.
Foi no tempo em que o vento norte empurrou a barca para o cais,
E me detive salgado na praia, banhado ao vento e á sede.
Foi no tempo das palavras trocadas, roubadas e oferecidas,
Eternamente mudas, plenas de silêncios entendidos naqueles fins de tarde.
Éramos crianças grandes aprendendo a linguagem das ondas em beijos de sal,
E carícias húmidas de maresia onde nos perdemos encontrando.
Tenho-a visto, ou imaginado tanto faz, algures entre as ondas.
Passeando ao crepúsculo brincando á apanhada com as ondas, feito criança,
Acenando ás musas e ás serias, imitando seu canto.
E ouço-lhe as gargalhadas e os choros e grito em vão o seu nome que desconheço!

Terça-feira, Setembro 01, 2009



Negaste-me teus braços,
Cruzaste o caminho para me evitar.
E eu mudo e ridículo pergunto
Agora onde me vou sepultar?

Rodopios


Á roda da mesa roda que roda a conversa desmedida,
Tida pela saudade no tempo sentida á roda da mesa querida.
Seguem-se conversas, desabafos afectos partilhados,
Á roda da mesa tidos com rostos sorrindo cansados
Ah, mas que alegria a família á roda da mesa reunida,
Com risos de cor e infância que grita uma toada de amor.
O petiz diz o que a sua infante justiça lhe dita e sua alegria incita.
-O cão que foge de mim, mamã quando festas lhe faço.
-Corro, salto brinco e em liberdade me desfaço somente para cair de cansaço
(muito tarde na noite, que as estrelas brilham mais no teu regaço)
Á roda da mesa roda que roda a conversa desmedida,
A roda onde roda a roda da vida.

Quinta-feira, Junho 18, 2009

Acordar Louco

Hoje acordei com o sol lá fora e a névoa cá dentro.
Ambos são realidades da minha natureza,
O sol brilha que assim tem de ser e a névoa esconde as vergonhas da razão.
Cada um cumpre a sua função com distinção.
Um de iluminar e outro de ocultar.
Tenho uma fome no espírito:
Fome de loucura e desvario.
Eu que louco me tornei e vazio de gestos que me alimentem a insana mente.
Fome de uma loucura que transborde e se afogue na inesperada certeza.
Sei que sou louco e na loucura espero a loucura não chegada.
Ah ridículo aguardar!
Como se não soubesse que nada existe para alem da realidade!
Que a metafísica nada mais é que a minha vil imaginação de poeta menor?
Querendo esquecer que do caminho para onde olho nada virá se não o vento e a areia que me cegam os olhos!
Não sei nada disto por ser da loucura que espero e não chega.
Merda! Pronto disse!
Outros podem viver e rir e criar e se chamar de poetas, mas eu não!
Eu que sou louco e de loucura esfomeado e sedento.
E esta névoa que minha névoa encerra.
Não sei o que esconde a minha humanidade
Se é somente esta forma de esperar o que, de desespero já se avista.
Sim, louco sou. E ridículo e palhaço que, com olhos rasos de agua, faz rir
Sim louco, e depois?
Louco por vazio de loucura me entregar a desditas literárias que nada valem
E que acabam, invariavelmente num qualquer caixote do lixo da memória!
Louco por desejar uma loucura onde descanse esta mente exausta!
Onde, finamente possa lavar meus olhos da areia, que a espera me recompensa.

Eureka

Eureka!!!! Descobri! Já disse o cientista!
Eu que de ciência entendo pouco
Eu que de metafísica estou inundado.
Ciúme é metafísica
Metafísica é este abraço que sinto.
Não, não é amor que sinto, é Querer!
Querer vazia porque me dou.
Querer sem recolha, sem imagem espelhada em mim.
Descobri, não é amor que sinto.
Amar é calmo
Querer é tumulto de paz construído.
Uma onda que se espraia na areia da vida
Uma fusão, um querer não querendo.
Um desejo ignorado.
Não, não é amor que sinto!
É Querer que me rouba a alma e me perde nesta busca!
Neste achado desencontro!
Hoje acordei com a escrita nas mãos
Escrita pobre como pobre é o que dou.
Desejo somente o por do sol na planície.
O inebriante odor do mar que a nossos pés implora nossos corpos.
O riso sincero de teus lábios perante a loucura.
Os olhos que não sei mais se mentem ou sinceramente imploram.
Sim sou um doido com direito a sê-lo!
Porque tão somente.
Não é amor que sinto, é desejo de Querer.

Ao corpo me fiz paixão

Ao corpo me fiz paixão
Naquele beijo roubado á razão.
Onde em vida fui sepultado!
Em cada palavra tua, embriagado,
E pelas trevas desse olhar, iluminado.

Em cada suspiro de entrega, renasço
Em cada abraço me desfaço!
Nessa chama onde queimei o destino,
No momento em que, de alma e desatino
Fui parido, criado, cuspido.

Que se calem as vozes de antanho
Que se faça silencio entre o rebanho
De cadáveres de inveja e medos trespassados!
Que o som seja somente os dos beijos esmagados
Entre nossas bocas sedentas, nossos corpos esfomeados

Seja teu prazer meu veneno!
Meu respeito e honra, tua vida
Seja teu corpo minha ultima morada.
E nossas vidas, o caminhar desta jornada
Que jamais sejam teus olhos a traição demonstrada…

Quarta-feira, Junho 17, 2009

As palavras e o vento

Devolve-me as palavras que á boca me arrancaste num beijo salgado!
Já as velas do barco aos ventos se estendem anunciando a viagem,
Quero levar as palavras,
Para o mar profundo que me reclama seu!
Devolve-me a marca da tua pegada na areia!
Devolve-me a sanidade, que na loucura já não sei andar!
Eu que louco fui, irremediavelmente louco,
Transmutavelmente insane e vil.
Aguardo na praia o bote que me leve,
Às planícies salgadas pela espuma dos tempos!
A tempestade sussurra teu nome como um grito!
E o peito se me queima lentamente em desvario.
Quero voltar ao mar e perder-me em agua,
Nos cantos malditos das sereias!
Quero voltar á Ilha Sagrada onde me acenam as sombras,
Se não a encontrar então que me perca buscando.
Devolve-me as palavras que em silencio guardas!
Preciso de vento que me encha o peito!