quarta-feira, junho 06, 2007

O Sapateiro


Maria de Luz era uma criança alegre, cujo um erro ortográfico na hora do registo, bem a propósito lhe caíra, tal era a claridade que, seu pequeno ser, de 6 anos, irradiava pelas ruas da aldeia onde crescia "em sabedoria e em graça".

Seus cabelos castanhos rimavam, com a já magnitude, de seus olhos bem abertos, como se, tão inocente ser, quisesse já apreender todas as experiências e sabedorias do seu mundo. Como se não lhe bastassem seus pequenos pensamentos de criança.

Seu mundo resumia-se á rua onde vivia e corria irradiando a Luz que o nome lhe traduzira, criando assim a ilusão que era o sol que se reflectia nas caiadas paredes das pequenas casas da sua aldeia, algures no Alentejo profundo.

Vivia pois Maria entre os deveres que, apesar do seu franzino físico, lhe eram destinados, e os sonhos que lhe eram transmitidos pelo simpático sapateiro do outro lado da rua, no limite supremo do seu pequeno mundo. Era o outro lado da rua, o paraíso de sabedoria para onde se refugiava depois de cuidar de seu irmão mais novo, enquanto sua mãe cuidava do sustento da casa.

Francisco Sapateiro, era um desses homens, que a providencia tinha bafejado com o dom de cativar o espírito simples das crianças com estórias por si inventadas. Suas estórias falavam de mundos fantásticos somente por ele conhecidos, unicamente em sua mente existentes. Falavam de países distantes e povos de outras línguas, outras raças. Falavam de Mouras encantadas, de Príncipes que as buscavam e, claro das estórias que cada sapato consertado poderia contar sobre o pé que o preenchia.

De Chico (que Francisco é palavra longa de rico e, Chico, é honrosa palavra de pobre) sapateiro pouco se sabia. Tinha chegado com poucos haveres á aldeia e logo se tinha instalado no nobre oficio de consertar e fazer calçado para os pés de ricos e pobres, senhoras e criadas, lavradores e maiorais. Dizia que o seu trabalho era o mais digno pois não distinguia os pés de ninguém e todos lhe mereciam o mesmo conforto independentemente dos seus proprietários. A isto claro, Maria consentia como verdade suprema mesmo sem compreender, que sua tenra idade ainda tal não lhe permitia.

Dizia-se, á voz pequena, que o sapateiro tinha andado embarcado por terras de África e teria sido um desgosto profundo de amor, que o teria levado a esconder-se na aldeia, como se fosse esse o seu modo de fugir ao destino e, as estorias que contava, o modo de recordar tempos de uma felicidade perdida, de uma esperança não recuperada. O certo é que seus olhos tristes se mareavam em certas estórias contadas podendo ser reconhecidas neles, as ondas que, talvez um dia, tenha conhecido num desses mares do mundo! Dele pouco mais se sabia do que as estórias que contava e o nome que constava nos registos do regedor: Francisco António Assunção de Carvalho Vieira, mas para todos era, simplesmente Chico sapateiro. Nas noites, depois de fechar a oficina e, quando já a aldeia se reunia ao redor da refeição, Chico ficava sentado á porta, de olhos presos no horizonte, como esperando alguém que sabia que jamais viria contudo, esperava.

Era neste universo de encantar, entre estórias de fazer sonhar que a pequena Maria de Luz se ia tornando grande. Era para o mundo paralelo daquela oficina de sapateiro que Maria se refugiava para, nas estórias do Sr Chico ir ora sonhando, ora alargando as fronteiras do seu próprio mundo. Os seus pequenos grandes olhos, engrandeciam-se ainda mais ao ouvir aquelas estórias de príncipes e princesas, de terras onde existiam animais jamais imaginados ou palácios de oiro revestidos. Seus pequenos grandes olhos castanhos tornavam-se ainda mais profundos em cada viagem entre meias-solas e mares de sereias e monstros.

Assim decorria o passar dos dias de Maria de Luz, alternando deveres domésticos com o seu irmão, aquém tentava reproduzir as estórias escutadas colorindo-as á seu modo, e o beber de conhecimento sentada num pequeno banco da oficina do Sr Chico. O tempo passava, como somente ele sabe passar, devagar, ao ritmo do sol que banhava a aldeia e das estórias do sapateiro.

Um dia Maria, depois de tratar do irmão e do embalar num sono que a libertasse para mais um exercício imaginativo no banco da oficina de sapateiro, correu para o outro lado da rua, para a fronteira do seu pequeno mundo físico,para se deparar com a oficina fechada. Estranhou, não era costume o Sr Chicofechar sem avisar e, sobretudo a meio da semana. Na porta da oficina um sinal predizia em se pequeno grande coração que algo estava irremediavelmente errado, um pequeno papel com uma pequena cruz negra quebrava a cinzenta monotonia da porta de chapa ondulada. Na rua, um estranho movimento de pessoas, quebrava a monotonia daquele inicio de tarde fazendo parecer que toda a aldeia tinha, de repente ganho uma vida própria, como se um estranho ali tivesse passado roubando um pouco de paz.

D Ermezinda, uma vizinha que conhecia a pequena Maria, e as suas viagens á oficina, chamou-a com ar solene: "Maria, onde vais?" perguntou, "Vou ouvir uma estória do Sr Chico" respondeu Maria estranhando a pergunta. "Maria" continuou D Ermezinda, agora com a voz doce que lhe reconhecia desde sempre, "O Sr Chico, não está. Foi-se embora esta noite","Embora como? Ele não disse nada", retorquio a pequena com ar de espanto e já, com os pequenos grandes olhos a começarem a ficar inundados com o mar de todas as estórias, aprendidas. "Maria, o Sr Chico teve de ir embora sem avisar, partiu para muito longe" continuou a anciã olhando para cima, para o céu...

Nesse momento Maria tinha compreendido que o sapateiro tinha ido para aquele lugar para onde vão todas as pessoas boas, e que tantas vezes tinha escutado nas estórias. Sabia exactamente para onde...e sorriu complacente. No fundo da sua pequena alma, sabia que o Sr Chico tinha agora se transformado numa estrela igual a tantas outras que aprendera a admirar nas noites cálidas de Verão. Sabia que continuaria ali a olhar por ela e a entrete-la nas tardes, depois de adormecer o irmão. Sentia dentro de si que, um dia iria conhecer todos os lugares das estórias, iria conhecer príncipes e fadas e palácios mas, sobretudo iria aprender a ser gente.

Hoje, Maria de Luz, é uma mulher bonita de olhos que rimam com os seus cabelos de sorriso fácil e cativante e, os mais atentos, podem ver ainda brotar de dentro de si a luz que lhe ficou, por erro ou profecia, anunciada no nome. Vive na cidade grande, mas nunca perdeu a magia das estórias do Sr Chico procurando com seus grandes olhos castanhos, resquícios de humanidade e, de quando em quando, olha o céu sorrindo, para aquela estrela que, brilhando, somente ela reconhece...

1 comentário:

Luciana Nunes disse...

Que lindo esse texto!
Parabéns!